sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Memória esfumaçada

Sempre fui fumante. Passivo. Não tive escolha. Quando criança, um tio meu fumava compulsivamente dentro de casa. Como meus pais não são tabagistas, ele transformou o banheiro em fumódromo. Não precisa dizer que o ar no ambiente ficou insuportavelmente asfixiante.

Apesar de ainda pirralho, reclamava. Coisa de criança marrenta, daqueleas que se soubesse falar mandaria o médico tomar no cu ao tomar a primeira palmada após o nascimento. O fato é que o vício me incomodava.

À época, morava na Bahia, onde nasci. Mudamos para São Paulo. Meu tio ficou na terrinha. Tempos depois, seguiu o mesmo caminho de minha família, imagino que dando muitas baforadas dentro do ônibus de viajem, que na ocasião demorava aproximadamente três dias pra cumprir o percurso.

Ele veio morar novamente na minha casa. De novo o banheiro se transformou em fumódromo, mesmo com um quintal e o universo inteiro lá fora à disposição para dissipar a fumaça.

Com o aprendizado da escrita, acentuaram-se em mim os traços de rebeldia. Já que falar e reclamar não adiantava, fui pro ataque com cartazes que espalhei pelos modestos três cômodos do cubículo onde habitávamos: “Favor, não fumar”; “proibido fumar” etc. O primeiro, já na porta de entrada.

Os visitantes estranhavam. Perguntavam aos meus pais se aquilo era obra deles. “Não, é meu filho”, informavam, apontando para baixo.

O tempo passou, meu tio se mudou, os cartazes sumiram. Eu cresci, virei adolescente. O cigarro virou moda entre os amigos, mesmo aqueles que na infância juravam jamais aderir ao tabagismo. E eu, sempre fumante passivo. Pero no mucho, sempre reclamei.

Tempos depois, eu já adulto, meu tio voltou para São Paulo. O pirralho já estava bem maior do que ele. Ficou uns tempos em casa. Mas dessa vez não precisei colocar cartazes para que ele fosse fumar no quintal.

Seria a última vez que nos veríamos. Mal pudemos conversar. E não foi por falta de tempo. Um câncer que atingiu sua garganta exigia dele grande esforço para falar. Um tumor gigantesco formava um enorme caroço em seu pescoço. Tinha vindo a São Paulo em busca de tratamento. Em vão.

Curioso que, apesar das desavenças em torno do cigarro, era um dos tios que eu mais gostava. Com ele tomei meus primeiros goles de cerveja. Aprendi a acompanhar a rodada esportiva do fim de semana. Lia as revistas Placar que comprava etc.

Quando fui à cidade de Bom Jesus da Lapa, onde nasci, passei no boteco que ele tinha, próximo à zona da cidade. Eu ainda era adolescente e passei a maior parte das tardes tomando cerveja e jogando conversa fora com ele.

Na última vez que nos vimos, fui levá-lo até a rodoviária do Tietê. Nos despedimos com um abraço. Na volta pra casa, não pude conter as lágrimas. Tempos depois recebemos a notícia de sua morte. Tinha quarenta e poucos anos.

Não sou contra o fumante. Pelo contrário, defendo ardorosamente o direito de a pessoa utilizar qualquer substância que queira em seu corpo. Mas não posso deixar de lamentar o mal que fazem a si e aos outros.

Como boêmio - e não fumante - por ocasião da entrada em vigor da Lei Antifumo em São Paulo tenho a lamentar apenas uma coisa: o que deveria ser uma questão de educação, tenha de ser imposto por lei.